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A lua estava cheia aquela noite. O céu estava com fortes tons de azul escuro, e as estrelas brilhavam de maneira forte, parecendo que a abóboda celeste não passava de um enorme teto pintado para um quarto de criança. E, afinal de contas, que era o mundo se não uma enorme criança em desenvolvimento?
A raposa estava com sua cigarrilha entre os dedos da mão. Apesar de que raposas, por serem animais selvagens, recebem o nome de suas patas dianteiras como patas dianteiras e não como mãos. Mas, de qualquer forma, a cigarrilha estava em sua mão. Ela tragou lentamente e depois deixou a fumaça sair por seu nariz preto, na ponta do longo focinho laranja. Ela estava sentada numa pedra e aguardava pacientemente à beira da estrada de terra.
Aquela estrada não era muito frequentada, ainda mais uma hora daquela. Às costas da raposa estavam piscando tímidas, talvez com vergonha das luzes das estrelas, as fracas luzes da cidade. Os sentinelas da cidade não conseguiam ver a raposa na distância que ela estava, mas a raposa, com seus olhos aguçados, poderia vê-los se assim desejasse.
As orelhas balançaram automaticamente. Reflexo natural ao som que começara a ouvir. Cascos de cavalo e uma roda de madeira. Passaram-se mais dez minutos, onde a cigarrilha chegara ao seu fim, até que a carroça no estilo de uma diligência, estivesse próxima o bastante e a raposa se levantou.
Ela vestia um colete preto com botões brancos e usava uma espécie de caneleira preta com detalhes em dourado que mostravam que ela não era uma raposa qualquer, pertencia à nobreza, ou ao menos tinha bom gosto. Fora seus olhos verdes como esmeraldas e espertos como olhos de.. bem, de raposa.
O cocheiro, um homem barbado de ar soturno, puxou as rédeas dos dois grandes cavalos, um preto e um tordilho, que pararam imediatamente. A raposa e o homem trocaram olhares e se mantiveram um encarando o outro.
- Trouxe o pacote?
- Isso depende. Trouxe o pagamento?
A raposa arqueou as sobrancelhas. O rabo fofo e peludo se moveu para frente e ela tirou uma bolsinha de veludo. "Esconderijo engenhoso", pensou o cocheiro. O animal de um metro e vinte, equilibrado nas duas patas, jogou a bolsinha, atirando na direção do homem que, de maneira ágil, soltou as rédeas e a segurou no ar. Cuidadosamente ele abriu e deixou que caísse algumas moedas douradas em sua mão. Pegou uma delas e a mordeu de leve, parecendo ficar satisfeito com o resultado.
- Bom. Venha, vou te mostrar a encomenda.
A raposa seguiu o cocheiro que havia saltado e caminhado para trás da diligência. Quando a raposa chegou na parte de trás, porém, o homem, que até então parecia pegar algo, se virou rapidamente segurando uma besta já com a seta pronta. Foi quando arregalou os olhos, a raposa não estava atrás dele como parecera segundos atrás.
- HEYA!
O homem viu quando o cavalo tordilho começou a galopar velozmente levantando poeira, a raposa montada nele à pelo. Amaldiçoou os deuses, mas ficou grato por que havia ficado com o pagamento e com a entrega.
Ou era isso que pensava até que conferiu os dois.
Longe dali a raposa ria raposísticamente.
AS CRÔNICAS DE CHRISTOPHER FOX